Manuel Urbano

Sertanista foi ‘bandeirante do século 19’ na região amazônica

Os contatos com tribos indígenas e o desbravamento dos rios da Amazônia para descobrir seus cursos, atrair migrantes e abrir novas rotas de comércio durante o governo imperial foram possíveis graças a Manuel Urbano da Encarnação (1805-1897), um prático de embarcações que viveu boa parte de sua vida embrenhado na floresta amazônica, ficando conhecido como “bandeirante do século 19”.

Filho de pai negro e mãe indígena da tribo mura, Urbano foi fundamental para o governo imperial consolidar a ocupação de uma área gigantesca da Amazônia, que engloba parte dos atuais estados do Acre, Amazonas e Pará. Nascido no município de Manacapuru, localizado às margens do Rio Solimões e a 93 km de Manaus, Urbano desde jovem se interessou em percorrer os rios amazônicos, fazendo contato com pequenas comunidades ribeirinhas e aldeias isoladas.  

Em 1852, com a implementação da Província do Amazonas, o governo local começou a programar expedições para o interior para obter informações e avaliar potencialidades econômicas. O engenheiro militar João Martins da Silva foi encarregado de fazer um levantamento do Rio Purus – um rio sinuoso de 3,3 mil quilômetros de extensão, que nasce na Amazônia peruana, entra no Brasil pelo atual estado do Acre e percorre parte do Amazonas até desaguar no Rio Solimões. 

Urbano, que conhecia muito bem a região sudoeste da província, acompanhou o engenheiro como prático de navegação e intermediário com comunidades indígenas. Na viagem, ajudou a levantar informações sobre hábitos, localização de aldeias indígenas e exploração das comunidades locais de gêneros extrativistas, como salsa, castanha, cacau e borracha, assim como os roçados de mandioca.

Impressionado com a desenvoltura de Urbano, o engenheiro militar o recomendou como guia para outras expedições do governo provincial e como contato com povos ao longo do Purus. Em 1854, Urbano foi nomeado “encarregado dos trabalhos de reconhecimento” da região pela Diretoria de Índios da província — instituição que garantia a particulares o direito de também “catequizar” as comunidades (tendo como finalidade sua incorporação ao contingente de trabalhadores do território).

Responsável pela área que ia “desde o Lago Jacaré e o Rio Tapauá, e da maloca Capana em diante”, de acordo com o decreto de sua nomeação, Urbano ampliou seus contatos com povos dos Rios Purus, Acre e Iaco. Uma de suas tarefas era relatar o itinerário de contatos com os variados povos, a fim de facilitar a entrada dos agentes oficiais (e também de outros exploradores e migrantes).

Em 1860, Urbano realizou uma expedição que durou 9 meses procurando uma junção entre o Rio Purus e o Rio Madeira, que correm de forma paralela. Seu trajeto o levou até as terras bolivianas, trazendo nessa viagem alguns fósseis (Saurian mossasauro) que encontrou pelo caminho. Em seu relatório descreveu várias tribos indígenas que, somadas, contavam com 5 mil integrantes.  Seu excelente relacionamento com essas tribos lhe rendeu o apelido Tapauna Catu, cujo significado é “Preto Bom”. 

Em 1864, Urbano ajudou o naturalista inglês William Chandless, correspondente da Royal Geographical Society de Londres, a percorrer o Rio Purus em busca de um canal de ligação alternativo com o Madeira em relação à expedição de 1860, de modo a evitar seu trecho encachoeirado. O objetivo era abrir uma rota de navegação que passasse pelo Amazonas e Mato Grosso até a Bolívia.

No ano seguinte, conheceu o americano William James, membro da Expedição Thayer, que descreveu Urbano como “um cafuzo, bem apessoado, com mais sangue negro do que índio”, mas sem reconhecê-lo como um explorador confiável — a literatura de viagem e os registros científicos costumeiramente enquadravam indígenas, africanos e mestiços de modo depreciativo.

Apesar das boas relações com comunidades indígenas, Urbano sempre atuou como informante do governo provincial em busca de novas rota comerciais na região amazônica. O americano James contou em seu diário que foi convidado por Urbano a acompanhá-lo em negócios no Rio Purus, para onde transportariam “grande carga de mercadorias americanas, de roupas a facas”, que seriam trocadas por plantas medicinais e espécies exóticas da Amazônia, como as tartarugas gigantes dos rios da região.

Essas trocas informais, baseadas no retalho, eram conhecidas na Amazônia como “comércio de regatão”. No século 19, os regatões — espécie de comerciantes fluviais de pequeno porte –eram muitas vezes os primeiros a entrar em contato com as populações indígenas de áreas ainda inexploradas, atuando como sertanistas.

Em 1874, Urbano fundou o povoado de Canutama (hoje parte do município de Benevides, no Pará), como um seringal, e recebeu a patente de tenente-coronel do governo brasileiro, por ser responsável pelo relacionamento com os índios paraná-pixunas. Mais tarde, seu nome foi dado ao atual município de Manuel Urbano, no Acre, e à Rodovia AM-070, que liga Manacapuru à região metropolitana de Manaus.

Manoel Urbano, o Tapauna Catu, morreu com 92 anos, em 12 de junho de 1897, em Manaus, vítima de varíola, pouco tempo depois de ser agraciado com uma pensão vitalícia pelo presidente da Província do Amazonas, Eduardo Ribeiro, por seus serviços como sertanista.

Após sua morte, o jornalista e escritor Euclides da Cunha deu continuidade ao trabalho de Urbano. Em 1904, o autor de Os Sertões — marcante relato da Guerra de Canudos, na Bahia — partiu para a Amazônia como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Sua missão era fazer um mapeamento cartográfico da região.

Embora o livro de Euclides da Cunha sobre a expedição tenha ficado inacabado, as anotações do jornalista ganharam importância por denunciar as condições precárias de seringalistas, em sua maioria migrantes nordestinos levados para a província após as expedições iniciais de Urbano.

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