‘O Sequestro da Independência’ tira o véu histórico de imagens que viraram referência sobre a efeméride

Reprodução
Foto: Tela de estudo do Grito do Ipiranga, reprovada pela comissão do museu
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Quando o tema é independência do Brasil, a primeira imagem que vem à mente é sempre a mesma: o famoso quadro de Pedro Américo, que ocupa lugar de destaque no Museu Paulista, no bairro do Ipiranga. A obra, que acaba de passar por restauro e, em breve, poderá ser vista com a reabertura do prédio histórico, foi perpetuada por anos como a que melhor retrata o evento do grito emancipatório brasileiro. Será? A fim de desmistificar o ‘fiel retrato’ e ampliar as lentes de quem analisa imagens que se tornaram referências históricas, está em cartaz a exposição O Sequestro da Independência, recém-aberta na Galeria Arte132, em São Paulo.

A mostra é homônima ao livro recém-lançado pela Companhia das Letras, escrito por Lilia Schwarcz, Lúcia K. Stumpf e Carlos Lima Jr, que narra a construção visual do mito  do 7 de setembro. “A ideia do livro é mostrar que muitas vezes uma nação se imagina a partir de uma tela e que ela pode ser totalmente imaginária”, ressaltou Lilia na abertura da exposição, a qual assina a curadoria com os outros dois escritores. 

A Agenda Bonifácio acompanhou a visita guiada pelo núcleo curatorial, que explicou como a independência do Brasil foi ‘sequestrada’ ao longo de dois séculos. E isso é contado por uma narrativa imagética que, por óbvio, parte do Independência ou Morte, pintura dissecada logo na entrada da galeria – com a reprodução da tela original, os estudos que a originaram e a capa de um periódico de 1889, que a coloca já como a imagem real. “Ela foi encomendada por Pedro II e pela comissão do Ipiranga para, de alguma forma, enaltecer a monarquia e refundar a figura de Pedro I, que saiu do Brasil com grande impopularidade. Afinal, ele impôs uma constituição e dissolveu os movimentos da sociedade civil de uma maneira muito violenta”, explica Lilia. 

Tanto no livro quanto na exposição, a ideia é mostrar que a famosa data, até então, não era conhecida como a da independência. “Até 1827 ninguém falava do 7 de setembro às margens do Ipiranga. A primeira pessoa a falar disso é Pedro I, que vai divulgar, no momento que vai cair – renuncia em 1831 – e divulga essa versão do seu protagonismo. Até então a independência era celebrada no Rio de Janeiro, em 12 de outubro, data da aclamação e sagração de Dom Pedro. Sete de setembro vai ganhar muita força com esta tela, para vocês verem como as telas não são decorrência, são causa”, completa a curadora. 

Pedro Américo ganha, portanto, a encomenda da tela em 1885 e segue para Florença, na Itália, onde compõe por três anos. “Tudo na tela é imaginário e o primeiro a dizer isso é o próprio autor, que publica um livro em 1888, na Itália, em português e italiano, em que um dos textos se chama Meus Plágios. Portanto, não há problema em dizer que ele faz plágios. Recebe a encomenda e se pauta em uma tela do (Jean Louis Ernest) Meissonier, um artista francês, que destacava Napoleão Bonaparte, inimigo dos portugueses”, explica Lilia. A partir daí, quase tudo na cena é pensado pelo autor da pintura: o príncipe que estava montado numa mula aparece em um cavalo; o Ipiranga era um terreno plano, mas para ressaltar Dom Pedro era preciso fazê-lo numa colina; os uniformes que aparecem na tela só foram usados pela guarda real em 1823; a casa bandeirante que aparece, hoje chamada de Casa do Grito, só foi construída em 1855, mais de três décadas depois da independência e o povo, bem atuante no processo, na tela é colocado como espectador da cena, apenas. 

Carlos Lima Júnior chama atenção para outros aspectos pouco notados. “É interessante que tudo converge para Dom Pedro e, enquanto a comitiva dele levanta o chapéu ou ergue a espada, o tropeiro tira seu chapéu e repousa no pescoço do cavalo, meio que assistindo ao que está acontecendo. E nesta pintura é a elite dirigente que ocupa o mesmo destaque que o príncipe Dom Pedro”, ressalta. 

Lúcia lembra que o estudo, rejeitado à época pela Comissão do Ipiranga, coloca o povo de forma diferente da tela oficial. “Eles têm a pele mais escura, com seus instrumentos de trabalho, e participam da cena da independência, bastante diferente da versão final. E nós também fizemos questão de colocar uma reprodução do Diário do Commercio, jornal que foi editado no 7 de setembro de 1889, o último do império, portanto, e essa foi a primeira vez que a pintura de Pedro Américo circulou massivamente para a nação. Isso porque ela veio ao Brasil em 1888, no ano que foi apresentada em Florença pela primeira vez, mas ficou guardada nos porões da Faculdade de Direito de São Paulo por muitos anos. Porque o Museu do Ipiranga ainda estava em construção. Só em 1895 foi para lá. O Independência ou Morte é uma pintura muito mais conhecida pelas suas reproduções do que vista pessoalmente”, analisa. 

NO CENTENÁRIO

A mostra segue nessa toada, explicando com algumas imagens conhecidas, outras nem tanto, como esse sequestro da data foi realizado ao longo de dois séculos. “No centenário da independência, em 1922, o presidente era Epitácio Pessoa, que pensava em celebrar essa data ainda tão próxima à queda do império, enaltecendo os novos tempos. Neste momento percebemos uma disputa muito interessante entre Rio e São Paulo, de qual dos dois se põem como protagonistas da independência”, ressalta Lúcia. À época, a capital federal era o Rio de Janeiro e para comemoração foi realizada a Exposição Universal. 

A ideia era se descolar da imagem que celebrasse São Paulo, propagandeada por Pedro Américo. Encomendaram, portanto, para os artistas da Escola de Belas Artes, que fizessem quadros históricos representando a cena. Na exposição na Arte132 estão as reproduções de três das obras vencedoras, uma delas a de Georgina de Albuquerque, a Sessão do Conselho de Estado, com pintura que traz pinceladas impressionistas, feita aos moldes da modernidade, e que coloca Leopoldina no centro da cena, assinando a carta que foi enviada a Dom Pedro I. Há também a de Pedro Bruno, que destaca a figura de Tiradentes, e a de Augusto Bracet, Primeiros Sons do Hino da Independência, com a imagem de Dom Pedro I naquele que seria o momento da noite do grito, quando foi recebido pelas elites paulistanas. “Conta-se que naquela noite, muito inspirado, Dom Pedro criou o Hino da Independência, cercado de jovens suspirantes, ainda com as vestes que usou no Ipiranga (risos). Mas a tela, em nenhum momento lembra São Paulo. O que corresponde a tentativa do Rio de construir uma imagem que tirasse o protagonismo de Pedro Américo”, ressalta Lúcia. 

Também em 1922 o Museu Paulista trabalha para chamar a responsabilidade da emancipação política. “É neste momento que nós temos de fato um grande sequestro da independência como um feito em São Paulo, e principalmente mobilizando a tela do Pedro Américo. Além de elevar a figura dos paulistas como definidores da independência, principalmente por José Bonifácio e irmãos, também dava destaque, um tanto amenizado, à questão das guerras da independência”, diz Carlos Júnior.

150 ANOS DA INDEPENDÊNCIA

Já em 1972, no ano em que se comemorava o sesquicentenário da independência, os militares tomaram as rédeas da celebração. “É um momento duro da ditadura, muito sequestro não metafórico, mas real. É o começo da desmontagem violenta da Guerrilha do Araguaia e o exército vai se preparar para usar os ‘feitiços de uma festa’, ou seja, emanar a população para que não prestasse atenção nos conflitos”, destaca Lilia. Eles convidam o artista Aloísio Magalhães para fazer a capa da cartilha comemorativa, que traz uma relação com 1822 e já manipula a ideia da flâmula verde-e-amarela, com Brasília, capital federal, em destaque e abaixo, o Pedro Américo. “Que cada vez mais vai virando a realidade da independência”, completa a curadora.

A ditadura também trouxe os corpos de Dom Pedro I e Maria Leopoldina para que ficassem na cripta do Museu do Ipiranga, mas as festividades brasileiras não atentaram para o tamanho do imperador. Chegou o corpo, mas não coube na lápide e, por muito tempo, ficou exposto em cima de uma mesa. Também teve o filme Independência ou Morte, estrelado por Tarcísio Meira, que não foi financiado pela ditadura, mas os militares compraram ingressos para todos os alunos das escolas públicas. “Essa história de filme de maior bilheteria tem a ver com a promoção da ditadura militar E é interessante a maneira mórbida de comemorar a independência, uma espécie de necropolítica, que é o que está acontecendo em 2022, porque estamos trazendo o coração de Dom Pedro I, que por conta do testamento deixado por ele está na cidade do Porto em Portugal, mantido em formol”, completa Lilia.

DESTAQUE DE OUTRAS IMAGENS

Os curadores também propuseram dar destaque para o que foi silenciado no repasse dessa história. A independência brasileira foi muito menos pacífica, linear, do que muitos fizeram questão de mostrar.  “Ela ocorreu através de muitas lutas. O país ficou em conflito entre 1820 e 1825. A partir da república, notadamente, começam a acontecer pinturas que destacam as cenas regionais. Os estados tomaram para si e começaram a reivindicar suas participações”, explica Lúcia. Entre os exemplos expostos estão o quadro O Primeiro Passo Para Independência da Bahia, de Antonio Parreiras, e a reprodução da Batalha de Pirajá, do Carybé. 

E, por fim, são mostradas releituras contemporâneas da independência como, por exemplo, um quadro feito pelo artivista Mundano, que se inspira no do Pedro Américo, mas coloca um líder indígena, morto recentemente vítima de Covid, cobrindo a figura de Dom Pedro I portando os dizeres ‘preservação ou morte’, além da pintura do artista Daniel Lannes, que ilustra a capa do mencionado livro. “É importante a gente pensar em 2022 e o que está ocorrendo um sequestro militar desta que precisa ser uma guerra cívica, de todos nós. É um momento difícil da nossa nacionalidade e o livro vai até 2021. Vamos ter um 7 de setembro animado para os incautos, problemático para os críticos, e é bom pensar que nesta data o bom mesmo é ser independente, sendo o que você quiser”, finaliza Lilia Schwarcz. Por ter caráter educativo, a exposição, que é composta de reproduções, deve rodar o país para ajudar a desmistificar o que foi vendido sobre a efeméride. 

Serviço:

Se quiser saber horário, endereço e outras informações da exposição clique aqui.

(Miriam Gimenes/Agenda Bonifácio)

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