Evento da USP debate bicentenário da Independência e centenário da Semana de Arte Moderna

Como pensar o Brasil no século 21? Foi a partir desta pergunta que teve início ontem, no Auditório István Jancsó, em São Paulo, o seminário USP Pensa Brasil, que segue até sexta-feira, dia 2 de setembro, com uma série de atividades gratuitas. Com a participação de integrantes do corpo docente da universidade, pensadores, escritores, entre outros, o evento propõe a reflexão de diversos aspectos da sociedade tendo como base duas importantes efemérides deste ano: o bicentenário da independência, completos dia 7 próximo, e o centenário da Semana de Arte Moderna, efetivado em fevereiro. 

Para tanto, uma série de conferências, debates, painéis, publicações, exposições e apresentações artísticas estão programadas, todas em formato híbrido (a programação completa pode ser vista aqui). Na abertura, a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda falou do papel da universidade para discussão de causas urgentes – entre elas a democracia – e ressaltou a importância destes debates para garantir espaços para novas utopias. “Vivemos um momento crítico da sociedade brasileira. Com esse país que parece não ter rumo ao aprofundamento dos problemas, passou a exigir que nossas portas fossem abertas para discutirmos questões mais profundas. É  um convite à reflexão de questões fundamentais para o nosso país. O seminário representa também a proposta de esperança de que nossas vozes possam ecoar e participar de uma agenda transformadora”, disse. 

A convidada para abrir a conferência foi a antropóloga, historiadora e professora da universidade Lilia Schwarcz, que partiu da ideia que a mudança de século não é do dia 31 de dezembro a 1 de janeiro, mas sim quando situações que transformam a sociedade acontecem de maneira significativa. O século 19, por exemplo, segundo ela, só acabaria em 1918, porque foi o ano que teve o fim da Primeira Guerra Mundial – que começou em 1914 – e também o mundo foi acometido pela pandemia da gripe espanhola. “O século 21, portanto, começa no Brasil em 2022, que podemos considerar um ano feriado por causa das efemérides”, explica a especialista. 

Além do centenário da Semana e do bicentenário da independência, Lilia também cita como marcos reflexivos do ano a avaliação da política de cotas, o centenário do escritor Lima Barreto e os 200 anos da escritora Maria Firmina. “E ao analisarmos a independência do Brasil, sequestrada por diversas vezes, podemos arriscar a dizer que a festa do próximo 7 de setembro será um experimento laboratorial para o que queremos para o século 21”, alerta Lilia. Na sua apresentação, ela mostrou como a data foi plantada por Dom Pedro I, já em baixa em solo brasileiro, para que se tornasse a figura depois registrada pelos pincéis de Pedro Américo no quadro Independência ou Morte, que está no Museu do Ipiranga, e depois os demais sequestros que a data sofreu ao longo de dois séculos. “O momento pede vigilância. Nós podemos imaginar que o século 21 tardou, mas chegou com força.”

A apresentação de Lilia foi seguida por uma leitura enviada por Chico Buarque, que declamou trechos do livro Raízes do Brasil, escrito por seu pai Sérgio Buarque de Holanda, e depois por debate mediado por Danilo Santos de Miranda e com participação do líder indígena e escritor Ailton Krenak e pelo jornalista e escritor André Singer. 

AO LONGO DA SEMANA

A programação no auditório tem sequência hoje, a partir das 18h, com a apresentação Vozes de Brasis, realizada pelo tradicional Sarau do Binho, que reúne poetas, cantores e músicos. O tema da conferência do dia, que vem na sequência,  é Relações entre Estado e Desigualdade no Brasil, e será realizada por Rubens Ricupero, seguido por debate com participação de Gilson Rodrigues, Padre Júlio Lancelotti, Marta Arretche e Silvio Almeida. 

Amanhã (31/8) o tema colocado na mesa é Impasses da Democracia Brasileira, liderado por Maria Hermínia Tavares de Almeida. No debate estarão Nelson Jobim, Pablo Ortellado, Eugênio Bucci e Maria Alice Carvalho. 

Quinta-feira, dia 1 de setembro, a conferência Antropoceno e o novo Paradigma Ambiental Brasileiro, será realizada por Carlos Nobre. No debate estarão Fernando Gabeira, José Augusto Pádua, Sônia Guajajara e Teresa Campello. E, por fim, na sexta, dia 2 de setembro, o tema é Impasses da Cultura Moderna no Brasil, conferência feita por José Miguel Wisnik. Em seguida haverá o debate entre Carlos Augusto Calil, Conceição Evaristo, Eduardo Saron e José Leonardo do Nascimento. 

MAIS ATIVIDADES

Além das conferências, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin organiza 200 livros para pensar o Brasil (Sala Multiuso, BBM/USP), uma viagem por obras da literatura e do pensamento social brasileiro; a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação é a responsável pela exposição Você e a USP: a Universidade de São Paulo Sempre Presente em sua Vida (Sala BNDES), destacando pesquisas realizadas na USP que estão presentes no cotidiano de todos os brasileiros; e o Instituto de Estudos Brasileiros trás Watú Não Está Morto (Sala Marta Rosseti Batista, IEB/USP), reunindo obras e instalações de 11 artistas brasileiros.

Também serão lançados 12 livros sobre o bicentenário da Independência como o centenário da Semana de Arte Moderna, tanto coletâneas resultantes de seminários organizados pelo SESC e BBM, como também teses e dissertações premiadas pelo projeto 3×22 da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Organizada pelos professores da USP Cecília Helena S. Oliveira e João Paulo Pimenta, o lançamento do Dicionário da Independência do Brasil: Memória e Historiografia (BBM/EDUSP) uma obra marcante para 2022.

(Miriam Gimenes/Agenda Bonifácio)

Publicada em 30 de agosto de 2022

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