“Centenário do Palácio da Bolsa do Café tem residência de artistas com obras inspiradas nas telas de Benedicto Calixto”, diz Alessandra Almeida, do Museu do Café

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Situado no centro histórico de Santos, no litoral paulista, no edifício que antes abrigava o Palácio da Bolsa Oficial do Café, o Museu do Café preparou uma comemoração dupla em 2022: o centenário de inauguração do prédio junto com o bicentenário da independência do país. Repete, assim, o que ocorreu há um século, quando a elite cafeicultora nacional, responsável pelo principal item de exportação do país na época, decidiu comemorar o centenário de independência construindo, sem economizar no luxo, o prédio onde depois seriam realizados os leilões de exportação do produto. A Sala dos Leilões do Palácio da Bolsa Oficial do Café foi decorada com cadeiral de madeira e colunas de mármore italiano, além de três telas e um vitral encomendados ao pintor Benedicto Calixto, que retratam a região do porto santista em três momentos: em 1545, ano de fundação da Vila de Santos, em 1822 e em 1922. A bolsa foi desativada nos anos 50 e o prédio, sem ocupação completa, acabou deteriorado. Após um restauro completo, o complexo foi reaberto já como Museu do Café em 1998. O que vemos hoje é uma joia arquitetônica muito bem preservada de estilo eclético, que mistura o barroco e o neoclássico, acervo riquíssimo sobre a história do café e uma programação eclética. Como explica na entrevista a seguir Alessandra Almeida, diretora-executiva do Museu do Café, o destaque deste ano da comemoração pelo centenário do prédio é uma residência de artistas, atualmente em curso. Serão selecionadas seis telas para serem expostas, que terão como tema a visão de Santos de 2022 – continuação das 3 telas de Benedicto Calixto retratando a cidade no passado. 


A celebração do centenário de inauguração do Palácio da Bolsa Oficial de Café junto com o Bicentenário da Independência não é uma coincidência. Tanto que o prédio da Bolsa foi inaugurado justamente em 7 de setembro de 1922. Na época, o objetivo era reforçar a importância da produção de café como símbolo de riqueza e modernidade do país no ano em que o Brasil comemorava o centenário da independência. Esta era uma visão exclusiva da elite cafeeira paulista ou a inauguração do prédio da Bolsa em 1922 tentava passar um sentimento mais amplo, de unidade nacional de um país em rápido crescimento?

Com certeza, um sentimento de unidade nacional. Era um período em que o café era o principal produto da economia brasileira. Estava à frente de todo esse desenvolvimento. O país se desenvolvia a passos rápidos, mas nesse período sempre por conta do café. Apesar de existir essa questão da elite cafeeira, do poderio do estado de São Paulo para mostrar sua força com o café, a inauguração do prédio da Bolsa teve esse âmbito nacional, mais até do que o estado de São Paulo, demonstrando a importância da cafeicultura para o desenvolvimento brasileiro. 

As atividades da Bolsa Oficial do Café seguiram movimentadas até 1929, iniciando um período de declínio que se prolongou até a década de 50. O prédio só seria desativado em 1986. Como surgiu a ideia de transformar o edifício como sede do Museu do Café, mais de dez anos depois de seu fechamento, e como se deu o processo de restauração?

Com o fechamento formal da Bolsa do Café, na década de 50 – ela só foi oficialmente extinta em 1986 –, o prédio passou a ser ocupado como uma instalação da Secretaria da Fazenda. Não na sua plenitude, apenas algumas áreas sendo ocupadas. De 1986 em diante, durante um período de dez anos, houve uma degradação predial muito grande – é um edifício que carece de cuidados especiais, por conta de sua estrutura. Por volta de 1996, a torre chegou a ficar na iminência de cair, de tão degradada. Para se ter uma ideia, a torre tem cerca de 40 metros, o dobro do tamanho do prédio. Os representantes do setor cafeeiro – produção, comercialização, indústria e exportação –, entendendo a importância do prédio para a história do café, se reuniram e buscaram ajuda do governo do estado para recuperar a torre. O governo sugeriu a criação de um grupo de trabalho para verificar a extensão do dano da torre e o que poderia ser feito. O estudo feito concluiu que não era só a torre – o prédio todo precisava de um restauro completo. As obras foram iniciadas em 1997 e concluídas no ano seguinte. Houve então um desejo por parte de todos os segmentos do setor cafeeiro, compartilhado pelo governo do estado, de se criar um Museu do Café. Assim, em 12 de março de 1998, foi criada a Associação dos Amigos do Museu do Café, já com o prédio restaurado. O museu então abre as portas, mas recebendo o público apenas na parte térrea, no Salão do Pregão, sem ter a parte museológica consolidada. A partir daí é que começa um longo percurso – este ano completamos 24 anos de existência –, mas de muito sucesso. Hoje temos o prédio inteiro ocupado como um complexo cultural e museológico de três andares. O museu reconhece a edificação como seu primeiro acervo, dada sua importância arquitetônica e histórica, tombada em três níveis de patrimônio. 


O Museu explora muito bem os dois aspectos mais importantes sobre a época de ouro do café: o acervo riquíssimo de documentos e maquinário desse período, mostrando como se deu esse desenvolvimento, e a recuperação e preservação da arquitetura, mobiliário, decoração e detalhes do prédio. Queria que você descrevesse um pouco sobre esses dois aspectos que servem como principais atrativos do museu.

Ao longo desses últimos 20 anos já foram feitos vários restauros desde a reforma inicial — o cuidado com a infraestrutura passou a ser feito de forma rotineira. O cadeiral do Salão dos Pregões, onde eram realizados os leilões de café, foi totalmente recuperado em 2014, os quadros e o vitral do Benedicto Calixto (que fica acima do cadeiral) também passaram por um grande processo de restauração. No ano passado, por causa das intempéries climáticas da cidade de Santos, fizemos todo o serviço de manutenção e conservação das fachadas. É um prédio de muitos ornamentos, tem o mezanino e a galeria, rebuscados em detalhes, de cem anos. Falando do interior, ao adentrar no museu, temos o Salão do Pregão, com o cadeiral e o vitral cheio de detalhes do Benedicto Calixto — que conta a história do café –, um mosaico de mármores italianos que decoram o piso. Ao fundo temos as três telas do Calixto, mostrando Santos em 1822 e em 1922 e as diferenças entre essas duas épocas, e a tela principal – a fundação da Vila de Santos, em 1545. O ambiente já é rico na entrada. E tem também as exposições de longa duração, “Café Patrimônio Cultural do Brasil”: o visitante passa por uma linha do tempo, entendendo quando surgiu o café, como o país se tornou o principal produtor, o principal exportador e o segundo maior consumidor de café do mundo, além de fatos da história relacionada ao café até os dias de hoje. Conta também um pouco sobre as profissões envolvidas aqui no mercado de Santos que ainda existem em torno do café. E o museu tem ainda uma parte dedicada a artes e ofícios, ferramentas que foram empregadas durante a construção do prédio. Além disso, temos dois espaços expositivos, salas temporárias, que sempre trazem exposições novas. Atualmente, uma delas é “O Feminino no Café, 1870-1930”. A outra, “Mundo em rede: as telecomunicações e o café”, mostra como a evolução das telecomunicações esteve envolvida com o crescimento da cafeicultura brasileira.

Existem outros museus do café no Brasil?

Sim, existem outros museus menores em Minas Gerais e no Paraná. Fizemos um mapeamento de museus do café no Brasil, para montar uma rede, e temos hoje como meta fazer um levantamento de museus do produto no mundo. A ideia é fazer um compartilhamento do que temos aqui e trazer o que está sendo feito no exterior. Neste ano, estamos num processo de reposicionamento do museu. Ele fala da importância histórica da cafeicultura, mas quer também mostrar o que essa cultura faz hoje. A cafeicultura já foi o primeiro item da pauta de exportação, mas hoje ainda está entre os cinco – ou seja, continua muito importante para o desenvolvimento do país. Precisamos acompanhar esse movimento da cafeicultura brasileira, para deixar como legado para os próximos cem anos vindouros. Temos esse compromisso e responsabilidade. Hoje, por exemplo, o café vive um capítulo de destaque mundial, um processo de sustentabilidade. E o Brasil segue sendo o país com maior produção sustentável. Além do histórico, estamos trazendo o contemporâneo e isso vai ser o foco do nosso reposicionamento.

Repetindo o que aconteceu em 1922, quando o Palácio da Bolsa do Café foi inaugurado, a agenda de eventos e exposições do Museu deste ano está sendo montada para celebrar, ao mesmo tempo, os cem anos do palácio e o bicentenário da independência. Quais são os principais eventos que o Museu do Café preparou para 2022?

Um ano muito importante para o país, mas também de muita celebração para o Museu do Café e não poderíamos passar em branco. Fizemos uma programação especial para o centenário do museu, que estamos chamando de Centfest, que é um centenário festivo. Começou na data do aniversário de 24 anos do museu, no dia 12 de março. Tivemos uma instalação da artista Flávia Junqueira no Salão do Pregão, que teve uma grande repercussão. E lançamos em seguida nosso programa de residência artística Santos 2022. É a primeira vez que fazemos esse programa. Visa a convidar artistas jovens para apresentar um olhar atual sobre Santos. Como mencionei, temos duas telas no Salão do Pregão do Benedicto Calixto retratando Santos, uma de 1822 e outra de Santos em 1922. Queremos hoje que um artista retrate Santos 2022 – como foi essa mudança, como se vê a cidade hoje, qual a perspectiva desses artistas. O edital prevê a seleção de seis artistas, que vão passar por um processo interno, conhecendo as rotinas do museu, a história do café e de Benedicto Calixto nessa retratação lá atrás, para apresentar seis telas. Dentro dessa programação de residência artística teremos, portanto, uma exposição temporária com essas seis telas. Dessas, serão escolhidos os três primeiros colocados. O público vai poder participar desse processo. Estamos prevendo um ateliê aberto, onde os artistas vão trabalhar no dia a dia, com o público acompanhando, questionando, em contato próximo com os artistas. Depois dessa exposição – que vai ficar em cartaz entre julho e agosto – teremos o Baile dos Cem Anos. Será um baile comemorativo, com presença de autoridades, em especial representantes da cafeicultura brasileira. Ao final do baile faremos um leilão dessas obras da residência artística. Ou seja, as peças produzidas durante esse processo serão leiloadas, com os recursos obtidos revertidos para obras do museu. É uma forma de exaltar a importância do prédio e da cidade. E também de apresentar novos talentos, que terão seus nomes colocados no mercado. Vamos finalizar a programação do centenário com o Mercado Coffee, bem próximo do Dia Internacional do Café, em 1º de outubro. É um evento que realizamos há algum tempo, mas pretendemos ampliar. Trata-se de uma feira de produtos à base de café – não só o cafezinho enquanto bebida, mas também o chocolate à base de café, a cerveja, o vinho, etc, e outros produtos, artesanato, por exemplo, dando ênfase aos pequenos empreendedores.

Para finalizar, vou fazer uma pergunta que sempre fazemos aos nossos entrevistados: Você acha que o Brasil é de fato um país independente?

Pergunta difícil, mas importante. Se compararmos o Brasil com outros países – somos um país jovem, temos apenas 200 anos de independência –, então acredito que ainda estamos num processo de independência. Já conseguimos tirar algumas amarras, como a separação de Portugal, tivemos realizações importantes. Temos um agronegócio muito forte, que não depende de ninguém, por exemplo. É um processo evolutivo e acredito que estamos no caminho certo. Mas acho também que a sociedade precisa ter esse entendimento, estar mais envolvida com questões sociais e políticas. Precisa entender o país como uma nação em desenvolvimento, em busca de sua independência plena. Ou seja, precisamos buscar nossa responsabilidade como sociedade, nesse processo evolutivo de independência. Só assim teremos uma sociedade justa, plena e igualitária.


(José Eduardo Barella/Agenda Bonifácio)
Publicado em 13 de julho de 2022